Dia Nacional pelo Uso Racional de Medicamentos

O Sistema Único de Saúde – SUS defende à promoção do uso racional de medicamentos, de acordo com os princípios e as diretrizes, desta forma o Ministério da Saúde, já há muitos anos, estabeleceu no dia 05 de maio o dia nacional pelo uso racional de medicamentos, inclusive em 2015 lançou uma Cartilha para a promoção do uso racional de medicamentos, que iremos disponibilizar o link de acesso aqui ao final.

O conceito de uso racional de medicamentos vem da OMS – Organização Mundial de Saúde -, e entende-se que ele acontece quando as pessoas em sofrimento, adoecimento recebem medicamentos prescritos para suas condições clínicas em doses adequadas às suas necessidades individuais, por um período adequado e ao menor custo para si e para a comunidade. Todavia o uso irracional ou inadequado de medicamentos é um dos maiores problemas em nível mundial.

 A OMS estima que mais da metade de todos os medicamentos são prescritos, dispensados ​​ou vendidos de forma inadequada, e que metade de todos os pacientes não os utiliza corretamente. 

Para nós da Psicologia é fundamental debater papel simbólico dos medicamentos e a sociedade de consumo, e especialmente no momento que estamos vivendo a Pandemia – COVID -19, este caráter do simbolismo se amplia ainda mais. E deste modo podemos problematizar o uso irracional de medicamentos com a vivência social e cultural atual da Humanidade.

Pois apesar de toda aparência de eficácia científica nos medicamentos, e na busca de asseguramentos via CONEP –  Comissão Nacional de Ética em Pesquisa-, que acompanha a inserção de novas medicações, mas ao fim e ao cabo medicamentos são mercadorias e como tal realizam o valor e garantem a acumulação de um dos segmentos mais lucrativos do capitalismo, a indústria farmacológica, não à toa é tão difícil a quebra de patentes dos laboratórios.

A questão midiática estimula uma visão quase ingênua do poder de cura, a busca de um suposto alívio, sem diagnósticos precisos, sem a certeza da segurança ética da aplicação de determinada medicação e sem o necessário estabelecimento da leitura do que é físico e do que é psicossomático em cada um dos processos de adoecimento, estimulando e iludindo como paliativo universal do sofrimento, incorrendo ainda mais o uso inadequado das medicações.

Debater a medicalização da vida versus a despatologização da Vida e da sociedade nos leva a refletir a vivência da dor como caminho reflexivo pessoal do envolvimento mais íntimo do “doente” consigo mesmo, suas vivências e expectativas. 

Compreender que sintomas, ansiedades, tem o sentido dado por cada pessoa à experiência da dor e do adoecimento. Portanto, a dor é vivida e se constitui em sofrimento de forma integrada a cultura.

Apesar do sentido identitário do trabalho os efeitos atuais da conjuntura produzem dor está relacionada ao cotidiano as vivências de medo de contaminação, mas também temor de desempregabilidade, trabalho precário, insalubre e penoso, com fadiga, agonia, ansiedade, tristeza, depressão, opressão, confusão, este enredo todo produz o adoecimento.

Assim a medicalização tenta tornar “suportável” e “enfrentável”, integrando-a num sistema carregado de sentido, mas ao mesmo tempo a medicalização especialmente das questões emocionais paralisam ou diminuem a capacidade de reagir autonomamente frente à dor ou de sofrê-la.

A proposta de alívio imediato do sofrimento, como em um passe de mágica, é um apelo atraente, mas tem todo um aspecto ilusório que se relaciona com o fato de que  estamos esgotados e não estamos “esperando que as coisas voltem ao normal”, será um “novo normal” e sem nenhuma certeza por hora de qual será seu delineamento.

A crise causada pelo novo coronavírus nos deixou um conjunto sem precedentes de emoções desconhecidas, novas incertezas, a ambiguidade das perdas, vivências de luto antecipado, e é fundamental viver as emoções, mas buscando criar estratégias de regulação dos sentimentos de modo a buscar caminho de cuidados paliativos e terapêuticos e não só medicalizantes.

Os desafios para o futuro devem estar na formação continuada e a educação permanente das psicólogas e psicólogos realizando a valorização das políticas públicas, da Saúde Coletiva e do SUS público e de qualidade, no cuidado à saúde física e mental, ampliando o debate da não medicalização da vida.

Portanto, faz-se necessário que cada um de nós se conscientize e entenda que o mesmo medicamento que cura, pode matar ou deixar danos irreversíveis.

Que repensemos antes de sair consumindo remédios desenfreadamente, refletir que a vida mais saudável física e psíquica está na construção de mudanças coletivas da sociedade, em mundo mais justo, solidário e respeitando as questões de subjetividade individual, vivenciando um quantum da dor, para nos mantermos humanos e não “robotizados” pela química.

Fernanda Magano – Presidenta do SinPsi.